RECUPERAÇÕES JUDICIAIS CRESCEM 21,2% EM 12 MESES; AGRONEGÓCIO DISPARA

Acompanhando os dados consolidados do Monitor RGF-BIZDOC até o fim de junho, fica evidente que o cenário financeiro para as empresas brasileiras atingiu um ponto de atenção histórica. No núcleo relevante da nossa economia, um universo de 2,76 milhões de companhias, o estoque de processos de Recuperação Judicial chegou a 6.341 casos. O número representa uma alta de 6,2% na comparação com o primeiro semestre de 2025 e reflete um crescimento acumulado de 21,2% em doze meses. Ao olhar para a base ampla de negócios (26,7 milhões de CNPJs), o total de insolvências atingiu 7.980 episódios.

O mercado de capitais sente esse impacto diretamente. A pressão se reflete tanto na volatilidade das ações quanto em instrumentos de dívida como debêntures, FIDCs e fundos de crédito privado.

As médias empresas são as mais atingidas na atual conjuntura, somando 4.131 do total de processos ativos. Os demais casos dividem-se entre grandes (806), muito grandes (222) e pequenas/microempresas (1,8 mil). Regionalmente, o Sudeste concentra o maior volume absoluto, mas as taxas de crescimento do Centro-Oeste (+12,4%) e do Sul (+10,7%) chamam a atenção pela velocidade da deterioração.

Nenhum setor tem mostrado tanta vulnerabilidade financeira quanto o agronegócio. Com 1.263 CNPJs em recuperação judicial, o segmento registrou um salto de 66% em doze meses, superando a taxa de incidência de RJ da indústria de transformação. Não se trata de uma crise produtiva, mas sim do custo do capital de giro e do encarecimento do crédito rural, ponto crucial para investidores de CRAs.

Enquanto as pequenas e médias recorrem à via judicial tradicional, as gigantes corporativas vêm optando massivamente pela Recuperação Extrajudicial. Trata-se de uma reestruturação mais discreta e com pouco registro cadastral público. No semestre, renegociações bilionárias chamaram a atenção do mercado:

  • Raízen (RAIZ4): Reorganização de R$ 65 bilhões, com aporte da Shell e cisão operacional.
  • Oncoclínicas (ONCO3): Renegociação de R$ 5,1 bilhões.
  • GPA (PCAR3): Reestruturação de R$ 4,6 bilhões, com elevadíssima adesão dos credores.
  • Tok&Stok (TOKY3): Entrada em RJ de aproximadamente R$ 1,1 bilhão.

Por outro lado, as falências voltaram a crescer, somando 2.798 empresas falidas até junho (66 a mais no ano). O catalisador foi uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que autorizou a Fazenda Pública a requerer a falência de devedores quando a cobrança fiscal convencional não obtiver sucesso.

Apesar do início do ciclo de cortes da Selic pelo Banco Central, a taxa de juros reais no país (próxima de 9%) continua sufocando o caixa das empresas. Como os efeitos da política monetária demoram entre 12 e 18 meses para se traduzir em alívio operacional, a expectativa é de que os estoques de RJ continuem subindo ao longo do segundo semestre, com estabilização prevista apenas entre o fim de 2026 e 2027.

Diante do aumento da complexidade das cobranças, do maior rigor dos credores e das novas exigências operacionais e tributárias, empresários que enfrentam dificuldades financeiras não devem adiar o diagnóstico da saúde de caixa de suas empresas. Buscar orientação especializada e avaliar, com antecedência, a adoção da recuperação judicial pode ser fundamental para estruturar um plano viável, reorganizar as obrigações e preservar a continuidade do negócio.

Louise Barbosa Braga. Bacharela em Direito, formada pela Faculdade Integradas Campos Salles.

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