Cenário econômico de 2026: riscos, ajustes e estratégia empresarial

Todo início de ano convida à reflexão. É o momento em que empresas, gestores e investidores revisitam estratégias, revisam projeções e tentam antecipar riscos e oportunidades que o novo ciclo econômico trará.

As projeções econômicas para 2026 indicam que o Brasil seguirá inserido em um cenário de transição delicada, marcado por crescimento moderado, juros ainda elevados, incertezas fiscais e maior seletividade no crédito. As análises recentes divulgadas pela imprensa econômica especializada[1] convergem para um ponto comum: o ambiente macroeconômico continuará exigindo das empresas um nível elevado de planejamento, governança e capacidade de adaptação.

Ainda que se observe algum espaço para flexibilização gradual da política monetária, o custo do capital permanece alto e o acesso ao crédito segue restrito, especialmente para empresas de médio porte. Soma-se a isso um contexto de instabilidade fiscal, riscos políticos e desaceleração do consumo, fatores que pressionam diretamente o fluxo de caixa, a previsibilidade de receitas e a sustentabilidade financeira das organizações.

Do ponto de vista empresarial, esse cenário impõe desafios relevantes. Empresas que cresceram em ciclos de crédito mais barato ou que operam com margens reduzidas tendem a sentir de forma mais intensa os efeitos da combinação entre juros elevados, retração da demanda e aumento dos custos operacionais.  A consequência prática é um aumento do risco de inadimplemento, descasamento financeiro e, em casos mais graves, de insolvência.

É nesse contexto que medidas para reestruturação do seu negócio, como por exemplo, a recuperação judicial precisa ser compreendida de forma técnica e estratégica — e não como um estigma ou uma solução de última hora. A recuperação judicial, quando bem estruturada e utilizada de forma tempestiva, é um instrumento legítimo de reorganização empresarial, previsto em lei justamente para cenários de crise sistêmica ou setorial como o que se desenha para 2026.

Sob a ótica jurídica e econômica, a recuperação judicial permite que a empresa ganhe tempo, reorganize seu passivo, renegocie contratos, preserve a atividade produtiva e mantenha empregos, ao mesmo tempo em que busca restabelecer sua viabilidade econômica. Em um ambiente de juros altos e crédito restrito, esse fôlego institucional pode ser determinante para atravessar períodos de retração sem destruir valor.

O que se observa na prática é que muitas empresas ainda recorrem à recuperação judicial de forma tardia, quando a crise já está instalada e o grau de deterioração financeira é elevado. Esse movimento reduz significativamente as chances de sucesso do processo. Em contrapartida, companhias que buscam assessoria especializada de forma preventiva conseguem utilizar os mecanismos legais disponíveis como parte de uma estratégia mais ampla de reestruturação e governança.

Diante das perspectivas para 2026, torna-se cada vez mais evidente que o Direito Empresarial — especialmente nas áreas de reestruturação, insolvência e recuperação judicial — não pode atuar de forma dissociada da realidade econômica. O advogado empresarial precisa compreender o negócio, o setor, o ciclo econômico e os riscos macroestruturais para oferecer soluções jurídicas que dialoguem com a sustentabilidade da empresa no médio e longo prazo.

Ademais, a Lei nº 11.101/2005 contempla outros mecanismos de superação da crise empresarial que não se limitam à recuperação judicial, como a recuperação extrajudicial, bem como instrumentos consensuais de solução de conflitos, a exemplo da mediação e da conciliação. Soma-se a isso a possibilidade de um trabalho estruturado de reestruturação empresarial, com atuação ativa na organização do passivo e na gestão estratégica das demandas judiciais, capaz de produzir resultados positivos e sustentáveis quando conduzido de forma técnica, planejada e tempestiva.

Mais do que nunca, o cenário que se projeta para 2026 exige das empresas uma postura ativa, estratégica e consciente de sua realidade financeira e jurídica. A antecipação de riscos, a leitura adequada do ambiente econômico e a adoção tempestiva de instrumentos de reorganização deixam de ser opções e passam a integrar uma agenda essencial de gestão e governança.

A experiência prática demonstra que crises mal endereçadas tendem a se agravar, enquanto aquelas enfrentadas com planejamento, assessoria especializada e uso adequado dos mecanismos legais disponíveis podem ser transformadas em oportunidades de reorganização e fortalecimento empresarial. O Direito Empresarial, nesse contexto, assume papel central não apenas na contenção de danos, mas na construção de soluções sustentáveis.

Assim, iniciar 2026 com reflexão, estratégia e decisões técnicas com profissionais capacitados será determinante para a preservação das empresas, dos empregos e da atividade econômica. Mais do que reagir à crise, o desafio está em se preparar para ela — e conduzir o negócio com responsabilidade jurídica, visão econômica e planejamento de longo prazo.


[1] https://brazileconomy.com.br/economia/2025/12/sete-tendencias-da-economia-brasileira-para-voce-ficar-de-olho-em-2026/
 https://www.cnnbrasil.com.br/economia/perspectivas-2026-as-projecoes-para-a-economia-brasileira/

Nathália Albuquerque Lacorte Borelli. Advogada formada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas – PUCCAMP. Pós-graduada em Gestão e Estratégia Empresarial na Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Pós-graduada em Direito Tributário pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Membro da Comissão de Estudos em Falência e Recuperação Judicial da OAB/ Campinas. Membro do Centro de Mulheres na Reestruturação Empresarial – CMR. Membro da IWIRC – Brasil. Membro da Comissão de Direito Bancário – nathalia@ygadv.com.br